Não dormi nada naquela noite. Fiquei prestando atenção nas batidas no peito aumentando sempre que eu
pensava que no dia seguinte estaria vindo pra Cuiabá. Queria ter certeza que eu não estava desesperada
e com medo, mas que era só ansiedade. Daquela normal e inofensiva. Não descobri o que era, mas torci
pra não ser uma intuição ruim, porque não sou nada boa nisso e a confusão seria certa.
Levantei antes do despertador tocar e comecei a me arrumar devagar, ainda tentando distinguir o que
estava sentindo. Papai já estava acordado, e eu só contei pra ele na hora de sair, pra evitar tanto
papo repetido. Eu estava certa do que queria, e isso basta. Eu sei que no fundo ele também sabe que é
o melhor que eu poderia fazer. Na hora de falar com a rainha fui direta também mas sem tempo nem
paciência pra mais explicações, pra evitar a fadiga mesmo. Ela estava na cama, e nem a cabeça levantou.
Melhor assim. A Sisi levantou pra me ver ir. Me disse todas as coisas que eu já sabia, mas que tenho
que ouvir sempre. Sisi e essa mania de ser minha irmã mamãe.
A minha mala era a vaca, e estava pesada demais, mas não pedi pro papai me levar. Essa minha mania de
carregar sempre tudo sozinha. Pedi só pra ele fechar a porta pra mim, mas ele abriu também o portão de
fora, e carregou a vaquinha lá pra fora. Quando percebeu que estava mesmo pesada disse que me levaria,
eu disse que não precisava, que estava adiantada mesmo e que iria devagarzinho. Essa mania minha de
carregar sempre tudo sozinha. Ele não insistiu.
Na hora de dizer tchau não pude resistir e dei um abraço nele. Foi desajeitado e rápido, mas foi cheio
de amor. Fazia anos que não abraçava meu pai, e não me lembrava mais como era. Segurei o choro, e a
quentura dele me invadiu. Não dava pra chorar ali. Não queria que ele pensasse que estava triste em vir.
Eu não estava, papai. Eu só te amo muito, e fico triste em não ter demonstrado o quanto ao longo dos
nossos dias juntos.
O choro deu um nó, mas eu segui. Segui arrastando a mala pelas calçadas tortas e paralelepípedos, até
conseguir chegar na rodoviária da Cidade Mágica. Continuei reparando nos detalhes de tudo.
Nos primeiros raios de sol acendendo as montanhas, no colorido do céu como aquarela, na minha respiração
fraca mas suficiente. Estava mesmo com cara de despedida. Consegui entender ali a minha sensação da
noite inteira. Estava indo embora. Dessa vez não vai ter volta, porque não quero que tenha.
A Cidade Mágica vai ser sempre a Cidade Mágica, e vou sempre voltar. Pela paz, pelo ar e pelos queridos.
Mas não vou voltar sendo a mesma de quando saí. Não mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário